Não sei há quanto tempo estou aqui dentro, sem poder me mover. Antes disso era muito movimento. Antes do movimento era assim como é agora. Mas não me lembro muito bem de como era cada minuto. O tempo tem roído minha carne aos poucos; lentos queijos derretendo nos arames.
Os anos se passaram rápido, enquanto os minutos tão lerdos. Hoje despertei no horario de sempre. Pelo menos nos ultimos meses. Sempre. Perto das dez horas meus olhos abrem naturalmente…senti imensa vontade de abrir toda a casa. Acho que o sol estava brilhando mais do que nos dias anteriores. O sol tem brilhado muito bonitos nestes ultimos dias, apesar do vento gelado que faz meus cabelos brilharem tanto quanto o astro. Então abri as janelas do quarto, da sala, da lavanderia que tem visão para todo o oeste e posso ver as montanhas ao fundo da cidade desnivelada.
Dobrei os lençois, cobertores e a atmosfera arejou-se intensa e parece que um ar dourado invadiu meus pulmões. Alivio. Ainda não suficiente acendi um incenso com cheiro de flores. Búcolico. Interrompi minhas leituras, minhas preces e minha ânsia e decidi lavar as xícaras sujas de chocolate quente de ontem a noite, quando resolvi durmir na sala em frente a tv, o computador e uns livros e revistas. Eles preenchiam as ausencias. Todas as ausencias.
Ouvia música, conversava com alguma amiga, planejava algum trabalho free lancer sem fins lucrativos e procurava emprego para sobreviver. O dinheiro está acabando e eu preciso sobreviver. Larguei o meu trabalho loucamente há dois meses atrás. Saí sem receber nada por direito legal do nosso país. Isso é uma droga. E drogas tem sido artificios que nao atraem mais meu organismo. Pelo menos nos ultimos tempos. Nunca.
Então, em cima da cama estavam as xicaras, livros, revistas, computador e tv. Não, a tv estava em cima da mesa. Em frente a cama. Minha cabeça girava a mil por hora, numa velocidade incalculável para qualquer físico. Enquanto minha alma adormecida por soníferos, ressonava bela e avermelhada dourada dentro do meu corpo pálido. Descobri então, enquanto conversava com minhas companhias ausentes, que a vida é assim mesmo. Se tudo muda a todo instante chegou a minha vez. E o que parece caos, é só uma nova maneira de vivenciar aquilo que a minha adormecida alma ansiava há eras. Tempo. “ Há quanto tempo eu conheço você? Ah quanto tempo eu ainda vou precisar? E eu dependo do que eu não entendo, eu pretendo apenas que voce saiba que isso é o meu amor.” Não sei mais o que é da minha alma e o que é do meu ser. Seja Ser aquele que tem corpo, mente e alma. Harmonia entre nós, é o que eu sou. Ego? Comunhão divina do meu ser. Seja eu, você ou qualquer outro. Que minhas palavras nunca se percam, tanto quanto eu me perdi, tantas e tantas vezes. Diariamente, graças à Deus. O incenso está acabando de queimar. Que o aroma atinja todos aqueles que de coração, alma e mente pura, ou influenciada, ou podre, ou réles ou maligno, não me importa. Apenas abram as janelas e sintam. Sentir. A chave dos meus ensinamentos neofitos para eu mesma, que ouço a voz do que é divino além de mim. Sempre.