Fiquei sabendo do filme através da lista de discussao do yahoo sobre Thelema. Sim, eu também estou lá.
Eis o trailler com legenda, para aqueles que estavam procurando…
Fiquei sabendo do filme através da lista de discussao do yahoo sobre Thelema. Sim, eu também estou lá.
Eis o trailler com legenda, para aqueles que estavam procurando…
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Ainda na série Maíra e suas quinquilharias!!! Esse é para quem preza pela bebida e quase não usufrui!

Desta vez é de um designer Japa!! By Kyouei design
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E como um selo eu escrevi teu nome em outras letras no meu braço.
Em outros versos e abraços eu gemi o gozo do amor que sinto.
Já não me cabem as palavras para expressar a ânsia do que desconheço nesta passagem.
Muitas outras manhãs vivemos, em outros continentes deste mesmo espaço sideral.
Enquanto no astral afaga em prantos os tropeços e mensura onde perdemo-nos.
Pondero estrofes pois não cabe a mim os belos poemas. A poesia.
Suponho longas histórias, repletas de fantasias, mentiras e verdades. Fatos.
Aflição.
Alguma coisa que lateja, e quer explodir. Ninguém compreende quando explico. Todos dizem ‘ deixa estourar’ e eu não sei. Meio quê meio e blá bláblá. Tem uns que dizem “não vai, tu vai se machucar” mas até estes ainda nao conseguem entender o que antecede a esse latejo, lampejo ou sei lá qual nome se dá pra isso. Aflição.
Então não sei se ato ou desato, se antes minha dúvida era armar ou desarmar, agora é o que nem sei mais. Uma luz? Um conselho, um apoio ou uma faca? Seria demais não é?! Mas se alguém entendesse o que vem antes do que parece ter sido. Ok. ” fica na tua garota”. Já dei oportunidades de ser ridicularizada a vida toda. Todas estas eu fui. Desculpas do tipo ‘ eu me importo com voce’ já não colavam mais para justificar os beiços; como falamos aqui no sul quando alguém é mimado e fica emburrado. Criança que caga nas calças faceira e depois que a merda ta feita. Chora.
Aflição.
Então deixa acontecer o que tem que acontecer, já que ninguém, talvez nem eu entenda o que antecede, tão pouco o que acontece agora. Costumávamos estar na mesma energia, sintonia e aquela coisa toda. Hoje… ah. Hoje o dia está tedioso, mas quero dizer que ultimamente, nestes ultimos meses, acho que anos já completaram, não vivemos mais esta harmonia. Será que vivemos de fato algum dia? Vivemos as suposições do que seria, poderia ter sido. Tô falando da sintonia. Nunca houve. Ninguém nunca me disse nada naquele tempo em que antecedia a este.
Estava na parada do ônibus, antes de ir para a faculdade e um jovem casal parou do meu lado. Ele usava um lenço vermelho na cabeça, uma mistura de Guns ‘n Roses e 50 cents Emo. Ela jeahs justo,all star e pó no rosto para esconder as espinhas adolescentes. Tinham menos de 17 anos com certeza. Ele parou na frente dela e disse: ” e daí?”
Olhou fixo e ela desajeitada retrucou ” fico com que eu quiser, mas sem sentimento, eu quero você, mãs…”
Ele olhou pro chão e continuou mudo, eu ria por dentro, nao sei se por achar a situação familiar ou por ser cômica mesmo. Ela abriu a mochila e ele ainda sem responder remexia junto nos cadernos que ela guardava. Eu estava doida pra perguntar ” mãs o que?”, mantive minha atenção nos dois e ela prosseguiu com ” olha as coisas que tu faz, acha que eu vou esperar tu crescer?” e eu ainda ria sem disfarçar agora. Um sorriso se alastrava no meu rosto e nada do onibus chegar. Faltavam vinte para as seis e chegaria atrasada na aula de ergonomia.
As tardes tem sido todas iguais, hoje não. Fui no supermercado e esqueci as sacolas lá! Voltei para buscar enraivecida, depois de 50 minutos na fila. E a minha cabeça andava onde? Quanta distração heim mocinha…

Da série: Maíra e suas quinquilharias!
Xicaras pelos Designers Jorine Oosterhoff e Egbert-Jan Lam.
Mobiliando o lar…
Escrevi tanto e apaguei todas as palavras, como se apagasse num só golpe todos os dilemas. Todas as canções, todos os poemas.
Entram os dias e as noites, estava em paz, mas e agora tudo virou de ponta cabeça! Não sei o que faço, apenas faço. Respiro, inspiro, suspiro…. e suspiro. Volto, meço, paro. Insisto, resisto, me entrego. A ladeira, aquela. Desce cessando os joelhos, querendo correr, pensando em parar. Esperar a avenca crescer.
Esperar a avenca arrebentar as janelas da minha sala, coração. Enquanto isso outra me sorri esverdeada…
- Poesia!
Hoje eu nao sei o que escrever. Um dos guris que morava nesse apartamento morreu ontem. Eu nao era amiga dele, nao estou triste, estou muito impressionada. Com 26 anos, ele sentiu-se mal na terça feira, descobriu um aneurisma e morreu ontem. Assim, do nada. Os outros guris apareceram aqui em casa, com caras de tristeza, relembrando os tempos vividos juntos. Eu fui para meu quarto, que era o quarto dele antes de eu chegar.
A vida tem se apresentado tao sutil nestes ultimos dias. Digo, nestes ultimos dias eu tenho me apresentado tao sensivel a vida. E mesmo que eu tenha esperado todos os anos que vivi, até hoje, sem saber o que esperava. Se é que esperava alguma coisa, e nao apenas enganava a mim mesma que esta estagnação eram esperas…mesmo assim, ainda sinto de leve os toques dos dedos do destino.
Curvas inexatas dançando entre minhas pernas, ruelas se estreitando e meus pés já nao sabem se saltitam ou caminham. Como se descesse uma ladeira embalada, meio clara meio escuro, meio dia meio noite, meio frio meio calor… meio de verdade meio de mentira.
Mais uma da série: estantes para seu lar. Depois do investimento até debaixo da terra, agora é a vez da fotografia!
David Blazquez’s photography exhibit – ‘Human Furniture’. The designer David Blazquez!!

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Não era o clima, ventos fortes cruzando os mares, nem o tempo, atrasada vinte minutos, era algo que misturava o ar e os batimentos cardiacos.
Ansiava e mal imaginava que seria surpreendida por ela mesma. Cedia lentamente, aninhava-se como a Serpente.
Não, não quero falar mais nada, só beber. Goles que de leve molham os lábios, goles maiores que enxaguam a garganta. A vida com um viver. Ventania, vendaval, telhados no chão. Quem tem coragem: Voa. Quem tem poesia: Canta. Quem tem vontade: Vive.
“A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante. As vezes que tentei morrer foi por não poder suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilio que eu gosto – mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem.” Caio Fernando Abreu
Neste post nada além de relatos sobre minha incrivel – sim, incrivel é uma boa palavra – viagem para o interior do RS, ver minha família no feriado da páscoa e encontrar os amigos para aproveitar estes raros momentos que fedem a naftalina. Desta vez o cheiro nao foi bem este.
Todos os minutos que passei lá foram de grande valor, desde as conversas típicas dentro da minha familia aos bares com as amigas. Cada istante tão intenso ao ponto de virar os ciclos de cabeça pro ar. Para o AR!
Poderia ficar aqui horas e horas dando detalhes de cada risada, cada musica brega que dancei, cada palavra nao dita que engoli, cada passada de batom na boca para ficar assim – mais bonita – cada almoço na casa da vó, admiração com as tias, mãe e irmaos. Toda a evolução, destruição e firmamento veio a tona nestes meros 3 dias aqui, na terrinha.
Não teria nenhuma poesia para embalar este conto, que é só simples e adocicada repetição de fatos marcados e subjetivos. Talvez eu pudesse cantar alguma coisa para ficar mais artistico. Não precisa, este post é para os amigos, para os que queriam saber: entao, como foi lá?!
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Se você é o único
Eu sou a única
Quem te faz ver você mesmo
Você é uma estrela, deixe-me levá-lo pra longe
Eu posso sentir quem você é, de verdade
Nós dividiremos tudo o que é raro
então,como você ainda pode não se preocupar?
- Computador ficará em repouso em casa neste feriado. Desligado recarregando-se para os futuros relatos. E quanto a mim? Eu estarei em mim. Naquela e naquelas condições. ” Assim como o homem, as hienas tem poder ambiguo do riso”
Feliz páscoa para as pessoas que a comemoram com o coelhinho (?) Fechar as malas e trip!!!
Fui.
Tenho medo do vazio. Não necessariamente medo. Só me causa espanto certas vezes. Ou como diz dois amigos meus: vezenquando.

Estou recebendo as fotos que fiz hoje, ou seria ontem? Já passou da meia noite. Pois que seja, meu sono nao vem como que de costume. Estas fotos não coloquei no orkut. Sabe como é… lá tudo tem que parecer bonito ou “artistico”.
Causa efeito nas pessoas que precisam deste instrumento para causar efeitos nas pessoas. Que sao pessoas também. Feito eu.

Rafael Avancini (www.flickr.com/contemporario)
Nada é Tudo Tudo é Todo Todo é Tudo Tudo é Nada Uno!
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(Caio F. Abreu)
Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço – seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.(…) Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.
(…) Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.(…) Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar – que seja doce. (…) Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar – você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível”.
Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in – invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.(…) Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca – amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.
Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.
Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores – acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado. Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.
Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.
Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.
Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
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