Entreolhava o reflexo dos meus cabelos naqueles cacos de espelho recortados e colados na parede. Formava um ângulo reto, perpendicular a porta daquele estreito café porto alegrense. Se estendesse o braço alcançaria o balcão de pedidos, enquanto o outro braço tocaria a mesa ao lado. Eram três ou quatro mesas, além de um balcão cujos bancos altos deixavam meus pés balançando no ar.
Bebia o café preto e sorria contida, tímida talvez. Ao meu lado meu amigo engasgado da vida, ressacado de alguma festa hetero banal, que se repetiam diariamente, dispensando qualquer descrição. O Lúcio demoraria a amadurecer, pensei sombria. Do meu outro lado um amigo-brinde-do-balão-surpresa. Não via o Daniel há muito tempo, tanto que mal lembrava o que ele representava para mim. Ou talvez nem o quisesse recordar.
Arrasto comigo o passado que vivi na minha cidade de origem. Não sei se vivi realmente ou se apenas imaginei. Mal podia conviver com meus próprios fantasmas, quem dera transferi-los para outras pessoas; principalmente a ele, que vejo durante poucas horas de raros encontros sociais mesquinhas e ridículos. Aquelas viagens para casa me exaltam a personalidade. Tê-lo ali, naquele momento em que não esperava nada além de um café antes de partir ao garimpo dos antiquários, era como deslocar o cenário e os personagens da minha história íntima.
Trocamos dois beijos, um abraço e sentei-me. Ele me perguntou como eu estava, não que realmente quisesse saber, mas simplesmente para preencher o silêncio entre o “olá” e o “ quer se sentar?”









