Monthly Archives: agosto 2009

Parte Segunda

Entreolhava o reflexo dos meus cabelos naqueles cacos de espelho recortados e colados na parede. Formava um ângulo reto, perpendicular a porta daquele estreito café porto alegrense. Se estendesse o braço alcançaria o balcão de pedidos, enquanto o outro braço tocaria a mesa ao lado. Eram três ou quatro mesas, além de um balcão cujos bancos altos deixavam meus pés balançando no ar.

Bebia o café preto e sorria contida, tímida talvez. Ao meu lado meu amigo engasgado da vida, ressacado de alguma festa hetero banal, que se repetiam diariamente, dispensando qualquer descrição. O Lúcio demoraria a amadurecer, pensei sombria. Do meu outro lado um amigo-brinde-do-balão-surpresa. Não via o Daniel há muito tempo, tanto que mal lembrava o que ele representava para mim. Ou talvez nem o quisesse recordar.

Arrasto comigo o passado que vivi na minha cidade de origem. Não sei se vivi realmente ou se apenas imaginei. Mal podia conviver com meus próprios fantasmas, quem dera transferi-los para outras pessoas; principalmente a ele, que vejo durante poucas horas de raros encontros sociais mesquinhas e ridículos. Aquelas viagens para casa me exaltam a personalidade. Tê-lo ali, naquele momento em que não esperava nada além de um café antes de partir ao garimpo dos antiquários, era como deslocar o cenário e os personagens da minha história íntima.

Trocamos dois beijos, um abraço e sentei-me. Ele me perguntou como eu estava, não que realmente quisesse saber, mas simplesmente para preencher o silêncio entre o “olá” e o “ quer se sentar?”

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Tendências de moda parte 1

Depois de algum tempo in off, Maíra resolveu lembrar dos tempos de colunista de moda e dar uns pitacos sobre o que está acontecendo no mundinho por agora e o que está por vir no inverno do ano que vem!!! Vou dividir o texto em dois posts para que possamos avaliar tudo que está acontecendo – ou quase tudo.

CROPEED 

Analisando os desfiles internacionais, percebemos a evidência do verão: as peças estão cortadas! Os geométricos invadem as modelagens deixando joelhos de fora, e a barriguinha a mostra.

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put your hand on your heart

Li um paragrafo do livro e o arremessei em direção a cabeceira da cama. Não quis fazer muito barulho para que as pessoas do condominio notassem meu desequilibrio emocional. Escrevi um email ao amigo Carlos, que entre tantos comentarios importantes para meu crescimento pessoal teve que levar o brinde-surpresa: ouvir [ler] meus desabafos.

Não sei por que escrevi a ele a dor mais profunda que tenho sentido e disfarçado bravamente nos ultimos tempos. Disfarcei ouvindo a dor dos outros; desses que me cercam com seus dilemas íntimos. O mais longe que pude ir foi relembrar antigas dores minhas. Do hoje, eu não falo.

A gente é obrigado a se refazer todos os dias, ou permanecer na podridão da morte que só corrompe até o último farelo. Eu tenho sentido os farelos. Não é melancolia de breve verão. É uma sensação terrivel que absorve minha energia, minha vida. Franzo a testa entre lágrimas de indignação.

Eu tenho um coração explodindo, que não pode mais esperar em vão. Meu corpo está adoecendo sadio. Os olhos cintilam um brilho-fosco. Paradoxo. Minha alma me avisa, e todas as circunstancias apontam o inevitavel.

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crosses

” crosses all over the boulevard”

Sobre o post que eu tirei do ar – explico. Explico?

A volúpia que invade os homens é deveras no mínimo cômica! No post anterior, que poucos leram, eu mostro minha profunda revolta pela banalização da poesia e da literatura em orkuts e afins, por meio de chamar a atenção para romancezinhos frustrados e adolecentes. Se perde o sentido original da verdadeira obra. Não?

Percebo que na vida a unica certeza são as transformações. Minh’alma realmente se exalta ao ver tanta riqueza atirada pelos asfaltos, me agride de alguma maneira que eu não sei explicar o motivo real. O que é real?

Sei que deletei o post! Após inumeras críticas, a respeito da minha abordagem – não que eu não possa ouvir críticas – apesar de ignora-las completamente e estar absurdamente acostumada a ouvi-las seja num projeto de vida ou uma viagem ao interior do Brasil. As pessoas no geral, estão sempre prontas para atirar suas pedras, mas se ofendem quando as próprias são arremessadas contra si – in-di-re-ta-men-te. Auto-ofendimento, isso existe??

Bobagens… o mundo está cheio delas. Eu, estudante de moda e antropóloga do cotidiano by Lula, vos digo: Ser otimista nos dias de hoje é realmente mais dificil, afinal, só se espera o fim de tudo. Será que alguém pode adiantar a tendência e falar do recomeço? Ou ficaremos assim? No abismo!

Vida de Estagiario

21-04-2005

Uma história que não é minha

Só ouvia, e quando ouvia nem pensava em escrever sobre isso. Pensei em escrever quando desci do onibus e andei uma quadra até em casa. Ponderei clamando ao santo deus, como poderia existir gente assim? Presa.

Ele é meu colega de faculdade há muito tempo, temos uma relação distante, afinal no curso de moda, cada um vive dentro do seu mundo e não se esconde isso. Ele sempre afirmou a heterossexualidade. Não, ninguém perguntou ou  queria saber. Ele afirmava.

Hoje ele sentou ao meu lado e me disse que tem sentido medo. Me disse que sua vida mudou completamente no ultimo mês e meio, marcou a data. Disse que se sente mais feliz, contente, mas que na prática tudo permanece igual. Me mantive atenta e pousei minha mão em seu ombro, olhei e disse para me contar o que estava acontecendo, usei minha voz  mais doce. Senti curiosidade sim, mas além disso, senti um pouco da madre tereza tomando conta de mim naquele instante.

Então ele enredou seu sucesso profissional, a relação traumatica com a familia, a morte da mãe quando ele ainda era criança e por fim confessou que foi surpreendido pela vida. Encontrou uma pessoa exatamente como ele. Me disse que sente medo de perder tudo o que conquistou até hoje; perder para esse cara que apareceu, que é tão ambicioso quanto ele.

Ele mentiu. Depois confessou que chorou, e percebi o nervosismo nos seus olhos. Ele está completamente apaixonado por outro homem. Ele mora numa cidade pequena e esse contexto realmente é cruel.

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Pegando a estrada?

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Ontem recebi uma visita surpresa do meu amigo-terapeuta kvera. Até que eu gosto de visitas inesperadas. [rir]

As perguntas chaves do tipo ” o que tu quer afinal Ma?” e ” porque tu reclama então?” marcaram a conversa. Foi ali que eu descobri (?) que o meu verdadeiro medo é a frustração. Por isso, quando eu desejo alguma coisa, eu automaticamente induzo o meu cérebro a não-querer-tanto para não me prejudicar caso não consiga e perca o pouco que ainda tenho (ter nao é um bom verbo, mas vamos usa-lo coloquialmente). O pior, com certeza é a parte de fingir para mim mesma que esse medo não existe, e substitui-lo pela dúvida de não saber o que desejo, sabendo muito bem.

Ah meus caros, é a velha lucidez disfarçada de loucura. Ou seria o contrário? Como diria o Raul, controlando a minha maluquez misturada com a minha lucidez, eu vou ficar aquilo que todo mundo já percebeu. Com certeza.

Amigos, parem para se questionar – não muito – mas ouçam aquilo que lateja manso ou tempestuoso dentro dos coraçõezinhos de vocês. Vejo da minha janela um pássaro, e ele fica parado em cima da marquise do bloco em frente a minha janela. Ora se exibe revoando no céu, outra aparece ali, me espiando. É um bem-te-vi gritão e pançudinho. Fica cantarolando nos meus ouvidos, e eu sorrindo como se cantasse para mim.

Me distrai dessa outra voz que fala para dentro.

Parte Primeira

Já se passavam alguns anos e o deslumbramento pelas novidades já havia murchado. Saí da cidade-pequena para a cidade-média e sabem como é, né? Aquelas alturas quase nada me surpreendia, conhecia um pouco de poucas coisas, mas já o suficiente para achar “bacaninha” e só.

O belo permanecia engessado como um poste, depois do horizonte debaixo de algum viaduto de uma cidade submersa. Enquanto a inquietude formava uma tênue linha entre o mundo lá fora e eu. Justamente nesse cordão, como uma bailarina equilibrava-me entre graça e humor. Um lamento.

Numa tarde dessas quaisquer, que não se espera absolutamente nada, recebi uma ligação do amigo que há muito não via. Aliás, há muito tempo não via ninguém que gostasse realmente; aquelas pessoas amigas que contornam nossas emoções somente com um olhar complacente, um abraço ou simplesmente outros assuntos. Ele me pediu ajuda com um trabalho, precisava de uma produtora de moda para um Editorial. Porto Alegre fica a trinta minutos daqui, porque não?

Cheguei lá, encontrei com toda a equipe e meu amigo esperando inquieto, me abraçou apertado e beijou minha bochecha estralando um som – o alivio.

Percebi e todos ali também perceberam minha falta de ânimo. Fiz minha parte do trabalho e acendia um cigarro entre cada look montado. A tarde era nublada e chuvosa, exatamente como deveria ser, afinal, é agosto.

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Dance with me

Vamos dançar um pouco estranho? Me mostre pecados secretos. Amor pode ser como escravidão. Me seduza mais uma vez… 
Queimando como um anjo que foi suspenso do paraíso. Queimando como o homem voodoo com demônios em sua capa. Porque voce não dança comigo? No meu mundo da fantasia. Porque não dança comigo? Ritual da feritilidade. 
Como um fantasma, você não parece real. Como uma premonição de maldições em minha alma. Do jeito que eu quero amar você…
Bem, poderia ser contra a lei, eu tenho visto você em milhares de mentes. Voce tem feito os anjos cairem…
Porque voce não dança comigo? No meu mundo da fantasia. Venha cá pequeno estranho, tem apenas mais uma dança até a música acabar, vamos dar mais uma chance a isso.  
Aproveite essa chance comigo! No meu mundo da fantasia. Porque não dança comigo?

Nada demais

Estou passando por um novo transito astral, foi o que disse meu horóscopo online; desses que a gente diz o dia e a hora que nasceu e eles revelam a vida toda. Ontem ele disse que estou apta a me apaixonar outra vez, e disse que essa tendência duraria até amanha. Porém hoje o horoscopo já disse que tenho pendencias a resolver, coisas das quais nao posso escapar. Já a carta do dia apontou que minha felicidade está nas coisas simples da vida, no humilde. O que será que eles estao tentando me dizer?

O layout do meu blog mudou – denovo. Talvez essa seja a quinta vez no mês. Eu bem sei, tem alguma coisa acontecendo ao meu redor, e eu sei exatamente o que é, mas finjo que nao sei. Finjo porque tenho medo. Medo das repetições. O lado esquerdo do meu cérebro me diz isso o tempo todo: vai passar. Esse lado esquerdo não vale nada! Cretino!

Estou agitada, com insonia, e dor no estomago, deve ter sido a pizza que comi antes. Meus olhos estão secos, mal consigo piscar. Tu já se sentiu assim? Sem motivos sólidos para andar de um lado para o outro. Viver os dias como se fossem nada e ao mesmo tempo como se fossem únicos. Nunca se sabe o que vai acontecer. Ou se sabe bem – nada demais.

Não fosse os emails do meu horóscopo toda a noite para guiar meus dias, eu realmente nao saberia o que fazer comigo mesma, além do que faço agora. Esperar. Sofro do que não tem nome nem motivo. Uma agonia sem cores, sem flores. Acho que vou queimar um incenso antes de tentar durmir, passar um creme nas mãos e tomar mais água – minha boca está seca também. É agosto. Eu também sei, vai passar, o lado esquerdo do meu cérebro também faz previsões astrais.

Memórias de minhas ausências

Hoje me lembrei do cara que eu ficava ano passado, bem no final do ano, antes de viajar para minha cidade natal e enfim. Quando voltei da viagem que foi um tanto atordoante, afinal, era o passado adolecente galopando em minha frente, meu ânimo mudou e quis outra coisa. Quis dar um pouco de valor ao rapaz que frequentava meu apartamento. É claro, ele tinha amor próprio e não me quis mais.

Porém este cara, esteve nos meus posts, sem nome algum, ele era apenas uma nomenclatura do que significava para mim. Um divertimento. Ele leu, ficou chateado, me ridicularizou, xingou e disse a única coisa prestável naquele tempo. Afirmou que eu manipularia as pessoas para viver situações reais e poder escreve-las posteriormente. Só minha criatividade literária não seria suficiente. Ainda pensando nisso, agradeci a deus por ter desistido de escrever pornô.

Toca Raul

… sozinho em silencio, calado, com uma pergunta na alma: Porque nessa tarde tão calma o tempo parece parado?

[Vamos ouvir...]

…Está em qualquer profecia que o mundo se acaba um dia…um gosto azedo na boca. A moça que sonha, a louca. O homem que quer, mas esquece. O mundo do dá ou do desce.

Então dessa vez tu vem?

Ele me ligava duas vezes por ano. Nao tinha uma data específica, como natais e aniversarios, nada. Eram em dias magros que se esperava bem pouco, de repente o telefone toca, uma ligação chiada e distante se inicia. Eu sempre sei o que ele vai dizer. As ligações nao passam de dois ou três minutos.

- Oi filha, é o pai!

- pai?

- Como tu tá? O pai não pôde te ligar antes, sabe como é a vida. Tá trabalhando? Tá bem?! Me diz teu endreço certinho, o pai não lembra onde colocou a anotação da ultima vez. Vou te ver filha, espera que o pai vai.

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A flor da estação

Meu mau humor foi embora hoje a tarde, quando sai na rua e senti um pouco de sol, gente e transito. É claro que nao foram estes fatores que animaram meu pequeno ser. Eu não sei o que animou. Sei que no supermercado, fiquei meia hora realizando um sonho; um desejo que sem motivo não havia concretizado nunca – comprei uma pequena plantinha com uma flor amarela linda e saudável.

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Bem, eu nao sei qual o nome da planta, pois estava escrito no cartaz anunciando o preço: “flor da estação”, por isso a chamarei de A Flor. Simples, prático e carinhoso. Ainda esperançosa percebi que o vaso escolhido além da flor amarela desabrochada, há meio escondido entre as folhas verdes um pequeno botãozinho tímido.

Eu sei, a flor é da estação e no máximo ela sobreviverá até o inicio da primavera, não vai resistir ao verão. Poderia ter comprado um cacto, eu adoro cacto, mas hoje eu quero muito mais do que um pedaço de verde. Uma vida independente. Não. Eu preciso de mais do que isso. Talvez, se eu cuidar bem, dar água, sol, conversar todos os dias e dar muita atenção e afeto a  Flor ela possa sobreviver?

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