(…) ” Sou só! A gente sempre é só. Serei sempre só.” Deparo com esse leitmotiv do princípio ao fim do caderno. Eu nunca pensara isso. Às vezes, dizia a mim mesma com orgulho: “Sou outra”, mas via nas minhas diferenças o penhor de uma superioridade que um dia todos reconheciam. Nada tinha de revoltada; queria tornar-me alguém, fazer alguma coisa, continuar indefinidademente a ascensão iniciada desde o nascimento; era preciso-me, portanto, fugir da rotina, sair dos trilhos batidos. Mas acreditava possível ultrapassar a mediucridade burguesa sem sair da burguesia.
A devoção dela aos valores universais era, eu o imaginava, sincera. Sentia-me autorizada a liquidar tradições, costumes, preconceitos, todo o particularismo, em benefício da razão, do belo, do bem e do progresso. Se conseguisse contruir uma vida, uma obra que honrasse a humanidade, felicitar-me-ia por ter calcado aos pés o conformismo.
Aceitar-me-iam como a Mlle Zanta. Descobri brutalmente que estava enganada; longe de me admirar, não me aceitavam; ao invés de me oferecer coroas de louro, baniam-me. Fui presa de angústia, pois percebi que condenavam em mim, mais ainda do que a atitude presente, o futuro que escolhia; esse ostracismo não teria fim.
Não imaginava que existissem meios diferentes do meu; aqui e acolá certos indivíduos emergiam da massa: mas eu não tinha muita probabilidade de encontrar algum; mesmo que fizesse duas ou três amizades, elas não me consolariam do exílio que já sofria; sempre fora mimada, estimada, gostava que gostassem de mim: a severidade do meu destino apavorou-me.
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