Daily Archives: 04/01/2010

contos – adiante

Então era assim, as lembranças vinham de repente na minha mente distraída enquanto via os faróis dos carros que cruzavam no sentido contrario ao que eu ia. Percebi que minha mãe sente mais falta da minha infância do que eu; notei isso quando ela sentou do meu lado e escovou meus cabelos como antigamente.

Não sei ao certo o que sentia nesses instantes de lembranças, se era medo da solidão futura, saudade do passado ou auto-admiração presente; não me importava muito com isso.  Lembrava que muitas coisas não ditas que ficaram na saliva e misturaram-se por tempos entre labios, entre dentes, entre silencios.  Sabe quando simplesmente não tem absolutamente nada a se dizer?

Então tudo ficou estagnado, porém diferente da inércia casual dos outros tempos. Neste, o que existe é o conforto do preparo para o que está por vir. E seguia adiante conforme o onibus ia me levando e, para trás eu só olhava de súbito, por costume ou prazer em acompanhar a luz dos faróis dos carros no sentido contrario- rápidos e intensos pensamentos antigos rabiscavam a escuridão dos incertos destinos. Calei enquanto via os eucaliptos no fundo dos vidros que escorriam gotas de chuva; aquela chuva morna da minha cidade, calei mesmo sem saber se era saudade, medo, admiração, salivas, infancia, silencio. A minha alegria é o futuro logo ali, adiante.