Não sei contigo, mas tem momentos na vida que eu penso que vou sentar no sofá e olhar em volta e dizer: agora eu vou viver.
É mais ou menos assim, de repente acabo a faculdade, ou mudo de cidade, ou a cor do cabelo; consigo alugar aquele belo apartamento, com todos os móveis certos, nos lugares certos; todos os quadros pendurados na parede e eu olho em volta, sentada no sofá, com uma xícara de chá, enquanto chove lá fora, numa tarde de domingo e eu digo: agora sim!
A vida toda eu corri longe do comodismo, mas inumeras vezes me deparo que é para uma vida insossa que me direciono, como se lá abrigasse as horas de tranquilidade e aconchego que eu busco. Quanta tolice enlatada. Será que a falsa-maturidade que me faz ver a vida com olhos mais amenos e menos ansiosos?
Num contraponto, talvez uma insegurança infantil não me abandona a ponto de me desesperar e inquietar diante de cada gozo. Obstinação por ora é besteira, quando não se sabe para onde está indo, porém mesmo assim, cega e hipócrita me atiro nos penhascos, como se nada houvesse além do vazio da queda e eu.
Não sei exatamente quando resolvi publicar minhas angústias, mas certamente elas denotam quem eu sou. Nunca quis mostrar ser, ou tentar ser aquilo que eu não sentia verdadeiramente em mim – mesmo que eu fosse humilhada por isso. Não quero ser ícone de ser humano raro e intenso, com uma vida cheia de vitórias e aventuras – essa não é minha intenção. Eu só quero poder entender, que assim como eu, tu, teus irmãos, teus pais, teus amigos, o cara desconhecido que compra pão no mesmo horário que tu, teus colegas de trabalho ou sei lá, podem ter em si a mesma coisa que eu. Uma inconveniente sede de tudo, uma abundante falta do que alinhar, e simplesmente existir livre, solta e sem ritmo pela vida, apenas tentando existir seja em prol de um sofá e a utopia da paz de espírito, ou do caos que governa nossas vidas.






