Estava no onibus por volta das onze da noite, passava por aquela mesma praça no meio da vila que sempre despertou curiosidade. Apesar de passar por ali há cinco anos, era sempre a mesma paisagem obscura e desconhecida.
Por ora observou seu reflexo no vidro da janela e deparou-se com inumeras mudanças. Não propriamente as roupas ou o cabelo, mas sua expressão havia mudado muito nos últimos anos. Tinha mais olheiras e uma ruga no meio da testa e duas marcando os cantos da boca, estava relaxada e notava.
Desde então havia conquistado várias coisas – coisas – que almejara previamente. Um par de botas de camurça azul, um apartamento com sacada, uma vidraça que permetia iluminar muito bem o apartamento que dividia consigo mesma, alémde uma porção de revistas internacionais e um par de botas de camurça azul, amava tanto tudo aquilo, e duplamente o par de botas de camurça azul.
Apesar de pequeno, o lugar aconchegava muito bem suas coisas, móveis claros, porém nem sempre organizado. Um sofá que a abraçada carinhosamente, uma outra pilha de livros, objetos de estudo, e toda a facilidade de uma vida solitária. Não precisava negociar nada com ninguém, pois ela conversava com ela mesma, e se ela queria, descia até o bar ao lado e encontrava um monte de gente. Ela quase nunca ía.
Muita coisa – coisa – a preocupava, principalmente o trabalho e a falta dele, custo daquela nova expressão, com rugas e olheiras, o atual espelho. Intervendo todo o fluxo de pensamentos e foco do momento, deteve-se a retomar a questão que secretamente a perturbava.
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