“Para cada Miucha Prada e Pucci há um Giorgio Armani, que nasceu numa cidadezinha de Milão tão agressivamente bombardeada pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial que ele perdeu todos os seus amigos num único dia. Num outro dia um cartucho de espingarda que encontrou na rua explodiu quando ele se inclinou para dar uma olhada. Ele passou quarenta dias na ala dos queimados e ainda tem cicatrizes. Madeleine Vionnet, contemporanea de Chanel e “rainha do corte enviesado”, nasceu na sujeira e na pobreza en Chilleurs-aux-Bois, em Loiret. Sua família a fez aprender os fundamentos da costura aos 11 anos; aos 18 ela já havia casado e se divorciado, e estava trabalhando num hospital de Londres como costureira, consertando roupa de cama rasgada. Louis Vuitton veio de uma familia de agricultores nas encostas dos Alpes franceses; aos 13 anos saiu de casa e foi para Paris, onde trabalhou como ajudante de estábulo até conseguir aprender a fazer malas. Em 1854, com nada além de suas ideias sobre como se devia construir uma boa mala, ele abriu a sua primeira loja, na Rue des Capucines. Thierry Hermés ficou órfão aos 15 anos, depois de todos os seus parentes e irmãos terem morrido de diversas doenças durante as Guerras Napoleônicas. Andou vagando um pouco e depois se estabeleceu na Normandia, região que concentra criadores de cavalos da França, onde aprendeu a fazer arreios. Em 1837 ele abriu a sua própria em Paris (perto da Vuitton) e seguiu em frente, fabricando os mais belos arreios, selas e posteriormente – isso mesmo – bolsas.
Fica-se tentado a pensar que o gene da coragem de impor ao mundo uma visão pessoal da beleza é localizado no cromossomo que também determina a capacidade de criar um objeto simples, belo (uma bolsa, um chapéu, um vestido), para o qual todas as pessoas do mundo pagarão quantidades assombrosas de dinheiro.
Os biógrafos de Chanel supõem que ela era capaz de ousar tanto quanto ousou porque não tinha nada a perder, querendo com isso dizer que ela não tinha familia, marido, nome e nem dinheiro. Outra coisa que ela não tinha era segurança. Se seu negócio fracassasse, ela perderia o patrocínio de Balsan e Capel, que não tinham a menor obrigação de ajuda-la. Ao contrario de Blanche Dubois, ela não contava com a bondade de pessoas estranhas, mas com a bondade de homens de negócios, o que envolve muito mais risco.”
Trecho do livro “O Evangélho de Coco Chanel”