Ciclos


Ridículo seria pouco para definir os ciclos que vivencio. Lendo antigos diarios dessas mesmas datas percebo a sincronia dos atores ao invadir esse palco e atuar nos mesmos personagens.

Há uma vaga modestia ao defini-los, porém existe um certo carinho e apego que os tornam um só: o personagem idealizado pelo criador desse teatro vulgarizado por Hesse como mágico.

Talvez a comédia comece quando os desejos renovados entram em cena. Como votos de prosperidade no ano novo, essas vontades oscilam entre o querer muito e o querer ao extremo! Nunca se soube como seria se concretizadas, talvez justamente por estas hipoteses é que se tornaram tão intensas e constantes – reproduziam-se claramente em determinadas épocas do ano.  O drama e a tragédia ocupavam seu espaço a sós. Não se pensava exatamente no que seria, era apenas um querer.

Silenciosos os desejos eram tecidos na atmosfera desses contos, que entrelaçados criavam teias e labirintos, e por ali mesmo, nossos personagens se perdiam. Ora trocavam seus papéis, por amadorismo ou intenção fazendo com que os atores viessem à tona. Súbitos e tétricos, logo vestiam seus hábitos e cerimônias, desfendo-se em argumentos e sumiam do foco.

Desligavam as câmeras e apagavam as luzes. Fecharam as cortinas, e de repente eu me vi só. Assistia branda aquele show sentada em uma das milhoes de cadeiras iguais. Estava numa fileira mediana, diferente do último lugar afinal o ano já está acabando outra vez e é hora de sentar mais perto; cada vez mais dentro do espetáculo.

Picadeiro?

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