Fala Hesse: Palavras cruzadas?


Aos muitos amigos que se dedicam a arte das palavras cruzadas, dedico este trecho!

“Naquela época milhares e milhares de pessoas, que na maioria se entregavam a trabalhos pesados e tinham uma vida difícil, nas horas livres ficavam curvados sobre quadrados e cruzes compostas de letras, enchendo os espaços vazios, de acordo com certas regras. Deus nos livre de ver nisso tudo só o aspecto ridículo ou insensato, e abstemo-nos de ironias a esse respeito. Essas pessoas, com seus “ enigmas” infantis e jogos intelectuais instrutivas não eram absolutamente crianças ou Pheakos levianos, pelo contrário, participavam com angústia das fermentações e terremotos políticos, econômicos e morais, tratavam inumeráveis e apavorantes guerras, muitas lutas intestinas, e seus joguinhos instrutivos não eram apenas infantilidades sem sentido, porém provinham de uma profunda necessidade de fechar os olhos e, diante de problemas insolúveis e pressentimentos angustiosos de aniquilamento total refugiar-se no mais simples e inocente dos mundos ilusórios. Essas pessoas aprendiam com empenho a guiar automóveis, a jogar difíceis jogos de cartas, e dedicavam-se sonhadoramente a decifrar palavras cruzadas – porque se encontravam diante da morte, do medo, da dor e da fome, quase sem defesa; da igreja não tinham mais o conforto, e do espírito não tinham mais o conselho. Os mesmos que liam tantos artigos e ouviam tantas conferencias, não se outorgavam tempo nem esforços para tornarem-se fortes contra o medo, para combaterem o pavor da morte, e viviam a tremer descrendo o futuro.”

Hesse – Jogo das contas de vidro

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