Parte Primeira


Já se passavam alguns anos e o deslumbramento pelas novidades já havia murchado. Saí da cidade-pequena para a cidade-média e sabem como é, né? Aquelas alturas quase nada me surpreendia, conhecia um pouco de poucas coisas, mas já o suficiente para achar “bacaninha” e só.

O belo permanecia engessado como um poste, depois do horizonte debaixo de algum viaduto de uma cidade submersa. Enquanto a inquietude formava uma tênue linha entre o mundo lá fora e eu. Justamente nesse cordão, como uma bailarina equilibrava-me entre graça e humor. Um lamento.

Numa tarde dessas quaisquer, que não se espera absolutamente nada, recebi uma ligação do amigo que há muito não via. Aliás, há muito tempo não via ninguém que gostasse realmente; aquelas pessoas amigas que contornam nossas emoções somente com um olhar complacente, um abraço ou simplesmente outros assuntos. Ele me pediu ajuda com um trabalho, precisava de uma produtora de moda para um Editorial. Porto Alegre fica a trinta minutos daqui, porque não?

Cheguei lá, encontrei com toda a equipe e meu amigo esperando inquieto, me abraçou apertado e beijou minha bochecha estralando um som – o alivio.

Percebi e todos ali também perceberam minha falta de ânimo. Fiz minha parte do trabalho e acendia um cigarro entre cada look montado. A tarde era nublada e chuvosa, exatamente como deveria ser, afinal, é agosto.

Ficamos seis horas fotografando, quando já era quase dez da noite todos já empolgados para ir para a casa da Débora, uma nova amiga do Lúcio. Me convidaram para ir e depois iriam para alguma balada na Cidade Baixa, ou na Independência. E eu?

Ah… Um cansaço misturado com aflição me invadiu. Sorri e entre dentes disse que não iria, inventei alguma coisa, daquelas que a gente cria para não magoar os amigos que só tem olhos brilhantes de alegria e um pouco de cocaína para alongar o tempo da curtição.

Juntei minhas coisas e fui para a rodoviária, voltaria para casa de ônibus, o que eu queria era apenas descanso. Quando despertei, minha primeira visão era o reflexo daquele espelho retangular, dentro dele uma bela e cheia parede branca. Estava deitada no chão, sobre um acolchoado cor de rosa claro, com listras brancas, o cinzeiro de vidro transparente ao lado e um cigarro na mão. Sentia-me ora um vidro transparente sem mistério ou segredo algum, ora um reflexo branco, parco.

A minha frente uma larga janela aberta e um céu completamente azul. Azul-vida, pensei. Ouvia velhas músicas do Pearl Jam, aquelas que me faziam pensar em rascunhos que a vida me deu para rabiscar. Os olhos estavam atentos ao espelho, as lembranças de alguns muitos tropeços Presa repensava. Agora eu estava sozinha outra vez. Sozinha de mim, do que eu era antes de agora. Havia me tornado outra criatura, que me era estranho até aqueles dias. Não tinha me acostumado ainda com as tatuagens, as marcas que a vida me fez. Que eu deixei que ela me fizesse, eu bem sei.

Cansei de ficar aqui dentro!!!

Levantei dali, calcei meu tênis, peguei um livro de contos do Caio Fernando Abreu, coloquei na bolsa, passei no caixa eletrônico e saquei vinte reais. Tomei o primeiro trem e fui para Porto Alegre outra vez. Não sei por que, mas há uma atmosfera lá que me conforta. Como se houvesse um eixo, uma zona de aconchego que só eu conseguia sentir. Durante a viagem li, lia duas linhas e voltava a pensar no meu umbigo – um vício já? Ainda que trabalhasse mentalmente o remorso, e tentava não me sentir culpada, eu sentia – ou pensava que sentia? Ninguém me deu auxilio, não tinha ninguém comigo. Ninguém me mandou parar, calar a boca, nada. Eu precisava culpar alguém que não fosse eu. Então encontrei uma ausências para tomar conta disso. Era eu e meus impulsos.

Desci no mercado público, no centro, andei até o parque da Redenção, queria ver os livros e artigos de antiquário, gostava daquilo, sempre via e ouvia gente antiga contando suas historias, e eu? Ah, eu adoro uma boa historia. Minha vida não passava de uma mera ficção bagaceira, escrita por um semi-analfabeto. Nada me pertencia. Eu precisava de mais. Mais do que aquela incrível liberdade que me fazia planar no nada. No vidro transparente das minhas memórias. Mais do que aquele reflexo em branco que eu via.

Não liguei para ninguém naquela tarde, não atendi nenhum telefonema. A vida me era sem gosto. Gosto de água. E eu entrei num daqueles cafés que ficam atrás do Brique, minha boca secava. A vida me foi gentil por fim, encontrei alguém que jamais esperava encontrar ali. Naquele momento em que a roda estava parada, esperando alguém para entrar e sentar ao meu lado, e tudo tornaria a girar outrora. Não sei como, mas giraria, afinal é o que acontece sempre. Se não fosse tamanha a surpresa naquele instante misturado de um tempo-todo, juro que sorriria, talvez gargalhasse e gritasse seu nome alegre.

Não foi essa a reação. A reação foi o que eu não saberia descrever agora, caso pudesse prevê-la, antes de acontecer este súbito encontro. Diria que não saberia como reagir. Eu reagi. Parei pálida na porta e mal abri os lábios para dizer: Olá.

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