Esse texto faria parte da edição de outro projeto, também nomeado Válvula de Escape. Mudei de idéia. Resolvi compartilhar aqui esse lirismo exageradamente cheio de adjetivos. Assim mesmo, bastantão. Talvez por ansiedade ou hábito de não guardar muita coisa comigo. Faço o tipo coração de mãe, mas não qualquer mãe, uma mãe grega, com cara de malvada, discurso de malvada, trágica, tensa e afetuosa, meio disfarce, meio cazuza.
A primeira parte do texto (que não aparece aqui) será a raiz do novo capítulo para o então outro projeto – assim mesmo, misteriosão. Após o dia de hoje – assim mesmo, sem adjetivo, estou com a boca aberta, querendo dar uma colherada só e só, só-zi-nha assim, como é.
I
Balançava o vestido como se quisesse dançar. Ah os meus oito anos e aquele vestidinho branco de rendas e fitas mimosas. Era o preferido, porém só para ocasiões especiais. Minha mãe dizia que poderia sujar, rasgar, as rendas amarrotariam e as fitas poderiam até mesmo desfiar pelas pontas. Aquilo tudo me apavorava tanto que preferia ficar só olhando para ele enquanto secava em cima da velha cadeira de vime envernizado, debaixo da sombra morna. Ah, aquelas tardes de primavera eram mágicas. As folhas das árvores ficavam misteriosamente mais verdes. Verde claro como no fundo do mar. É claro que eu não conhecia o fundo do mar, imaginava apenas. Eram folhas verdes claras como no fundo do mar, mas nem tão fundo assim, pois eu já sabia que no fundo do mar e de todas as coisas, as cores não são tão claras.
O fundo do mar, do rio e das emoções é escuro, terroso, marrom ou cinza, tipo chumbo, mas isso não é ruim. Ruim mesmo é quando as coisas ficam pretas. Ah meus oito anos!
Hoje abri meu guarda roupa e percebi que todas minhas roupas são pretas. Nada de vestidinho, muito menos de renda, muito menos branco, muito menos com fitas! Veja bem, vestidinhos ficaram lá atrás, na cadeira de vime debaixo da sombra de folhas misteriosamente mais verdes. Com essas estações indefinidas, neblinas mais freqüentes e ensaios sobre o paradoxo da existência banal, nos fazem quase não notar a primavera passear por nossas janelas.
E quem foi que sumiu com os verdes claros, com os vestidos de fitas, rendas, brancos, e aquela vontade de sair dançando pelos gramados recém acordados da aurora?
Tenho uma suspeita tremendo em minhas artérias e apontando para aquele medo de sujar, rasgar, amarrotar as rendas e desfiar as fitas do meu preferido bem mais querido, que fez com que eu me livrasse de tudo que pudesse soar claro, limpo, recém lavado e seco à sombra de uma árvore. No fundo, essas cores são mais claras que imaginamos, é o brilho que não nos deixa apalpá-las.






