Parte Oitava – Interludio


Encontramos facilmente o templo, afinal é uma das atrações da cidade. Tudo era lindo por lá, o ar, o céu, as construções antigas, as novas, tudo. Estava entusiasmada por termos chegados sãos e salvos daquele súbito passeio.

A vida nos é um eterna desconstrução, desde que encarnamos nesse mundo, estamos aptos a nos desfazer de tudo aquilo que nos é ensinado, apenas questionando.

Às vezes as aparências nos levam a tomar atitudes precipitadas, desfazendo do que sentimos por nossos julgamentos precoces, e de certa forma, nesta situação, a viagem com meu amigo Niel, a lição era exatamente esta.

Eu tinha ligações com algumas pessoas da Ordem em Porto Alegre, mas desconhecia qualquer tipo de missão. Não me caracterizava nenhum pouco influente na vida de absolutamente ninguém. Não inspirava ou sequer referenciava qualquer coisa para alguém naquele lugar, e nem em outro.

Era apenas uma pessoa tentando sobreviver o dia a dia, saindo da casca da infância e assumindo responsabilidades adultas, era assim que me encarava.

As simbologias do universo nem sempre estão incógnitos em códigos esotéricos, estão por aí, em nossos pensamentos leves, nas ferramentas da rotina, porém as interpretações acabam por limitadas, unicamente por estarmos condicionados as nossas insatisfações pessoais.

Tinha por hábito superdimensionar qualquer mínimo acontecimento, me achando personagem de algum filme holiwoodiano. Inventava para mim, tramas e suspenses, os vivia e me enroscava em casos unicamente pelo divertimento das circunstancias absurdas.

Parecia ridículo, mas era a maneira que encontrava para encontrar um pouco da emoção adormecida no meu ser, jamais despertada pela minha personalidade insossa e comum.

Ansiava esse despertar da minha alma para alguma causa maior, almejando a felicidade imóvel, como num conto de fadas.

Sabia que encontraríamos uma pessoa muito importante no Templo, que nos esperava para nos passar alguma mensagem. Não sei se eu sabia disso ou apenas intuía, pois juntava os fatos, ligações, encontros, e demais, estava sempre tentando dar sentido aos acontecimentos, criando elos, romances e poesia para o cotidiano.

O Niel carregava consigo aquele pacote cheio de símbolos; eram cartas, vestimentas, anotações, e a única coisa que eu enxergava naquilo tudo era um único sinal. O próprio pacote era a resposta das simbologias que o continham.

Ele carregava consigo um pacote de segredos e pessoalidades, que o faziam único entre os outros, que o faziam sentir-se especial, numa incrível viagem ao encontro de si mesmo.

Era como se carregasse no colo sua própria alma, sendo desvendada pouco a pouco, enquanto eu…

Bem, eu ficava ali, sempre a espreita de alguma novidade.

Eu não carregava nada em mãos, mas tinha em mente que finais felizes, assim como nos contos, podem ser apenas continuar vivendo, e acreditar, por mais cruel que seja em alguns momentos, que alguma coisa muito bonita pode estar por vir.

No caminho para o templo, essas teorias se condensavam como átomos. Foram encontros, incertezas, indagações, e lá estávamos nós, desconstruindo absolutamente tudo que nos era imposto.

Continuávamos a existir.

[ Veja também Descompassado]

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