Válvula
Skip to content
  • Início
  • Escapismos
  • Maíra Thums
  • Principal
← Quadrilha
Veronika decide morrer – o filme →

Parte Quarta

Posted on 11/09/2009 by Maíra Thums| 22072 Commentshttp%3A%2F%2Fmairathums.com%2Fparte-quarta%2FParte+Quarta2009-09-11+02%3A43%3A10Ma%C3%ADra+Thumshttp%3A%2F%2Fmairathums.com%2F%3Fp%3D2207

Não tinha muito dinheiro para viajar tão inesperadamente. Estava contente por ter saído daquele cenário que me contaminava todos os dias com tal ânsia desmedida, talvez por isso nem pensasse muito sobre o que estava perdendo ou ganhando com aquela atitude.

Durante as poucas horas de vôo até Buenos Aires não descansei um segundo, mantive minha tensão descrente e automática. Percebi que o Niel dormia, enquanto isso eu o observava silenciosa querendo entender os motivos dele para estar ali, afinal algum havia de ter!

Quando chegamos ao aeroporto, uma atmosfera deliciosa me invadiu, e essa sensação esboçou um sorriso confiante. Naqueles instantes me escapei a uma calmaria, apenas pela impressão de um mundo desconhecido apresentando-se aos meus pés. Era como se as cortinas do grande palco fossem abertas, e a partir dali iríamos descobrir em nós mesmos e talvez um no outro um pouco mais de cada um. A lentidão e a peculiaridade desse espetáculo me deixavam excitada; mal podia esperar para que começasse – sem perceber que o show já estava ecoando aplausos mudos de uma platéia oculta.

Éramos nós, então estranhos um para o outro, mas não me sentia desconfortável ao lado do Niel, pois parecíamos duas crianças, indo brincar numa pracinha, ele me empurrava no balanço para ir mais alto e vice-versa. Falamos sobre o que víamos na rua, e então o passado não existia para nós, apenas aquele dia era sólido e real. Tudo parecia realmente uma grande brincadeira.

Ele já conhecia Buenos Aires, e por isso soube me conduzir, mesmo que claramente empolgado, pelos lugares que passamos. Apontávamos e ríamos muito de tudo e qualquer coisa que nos atravessasse a frente.

É uma cidade incrível afirmei ao amigo, enquanto ele me perguntava para onde gostaria de ir primeiro. Devido à decisão súbita da viagem, não tive tempo de pesquisar nada a respeito dos lugares que passaríamos até chegar a Cordova, apenas seguia as vontades dele sem muitas explicações. Tudo era novo e diferente, um pouco distante das paisagens brasileiras, mas esses eram apenas complementos de cena, afinal, os personagens estavam apostos, assim como os figurantes e coadjuvantes dessa história. Aí eu não sabia se assistia ou simplesmente ignorava o espetáculo, pois o que ambos sabiam é que não estávamos encenando absolutamente nada.

Já sentia fome na metade da tarde daquele sábado, por isso resolvemos entrar no café Tortoni e comer alguma coisa. Enquanto tomávamos café e esperávamos nos trazerem salgados, o Niel resolveu abrir a boca, e começou a falar coisas estranhas.

Não descompassadas, é claro, mas esquisitas, pois não esperava ouvi-las dele naquele momento. Senti medo dos questionamentos que me fez, não sei por que, mas me deixou surpresa.

Falamos dos sonhos, das vontades e um pouco do que ficou para trás. Daqueles desejos adolescentes interrompidos por nossos limites. Talvez eu culpe aquela nossa precocidade retardada, ora adulta demais para o passado que tivemos, ora demasiadamente infantil para idade que temos hoje.

- Porém há questões que o tempo não difunde, e não importam as rugas no rosto, vivemos os mesmos dilemas, tão naturais dos ciclos da vida.

Foi um pensamento didático que interagiu minha fala durante o dialogo entre nós. A consciência desses questionamentos me deixa realmente angustiada, pois estou sempre esperando por um desfecho, e a vida só me coloca novos paradigmas. Naturalmente não consigo superar todos os que eu gostaria, mas aquele instante com o Niel me era uma vitória. Remoto e desatentos íamos divagando e desenrolando uma fita acetinada e toda sedosa, cheia de nós e fibras arrebentadas pelos puxões insanos que fizemos no decorrer da tecelagem vã – era tudo que podíamos ter feito, reafirmei calada enquanto ele falava. Naquelas alturas da conversa, alguma coisa já me avisava, o quanto eu gostava dos problemas…

 

[Veja também Descompassado]

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
← Quadrilha
Veronika decide morrer – o filme →
  • Cadê?

  • janeiro de 2012!!!

  • about

  • home

  • Facebook

  • CONSUMA!

  • portfólio

  • bloglovin
  • arquivo

  • Categorias

    design fashion house lyric me and my movie music new photo reading soul stuff
  • Do som

  • Twitter: @mairathums

    Maíra Thums
    • coragemmmmm heim?! about 5 hours ago from web ReplyRetweetFavorite
    • @fabiomattos nao sou de reclamar mto do clima, mas hoje ~tá federal~ hahaha about 5 hours ago from web in reply to fabiomattos ReplyRetweetFavorite
    @@mairathums
  • APERTE O BOTÃO

     

Mais um blog de Fagner de Souza.