Nunca soube de onde emergiam todas aquelas idéias e impulsos desnecessários a órbita que havia inventado para minha vida. Então eu era dona de mim, porém comandada pelos meus próprios impulsos?
Não conseguia aceitar isso!
O Niel me parecia muito na dele, como deveria ser, afinal não esperaria absolutamente nada daquele rapaz. Ele só tinha vinte e poucos anos de frustrações adolescentes, mimos e reflexos de uma vidinha burguesa que levava. Ele não poderia me dar o que tanto procurava naqueles últimos anos, eu sabia que não podia.
Então, dei um único corte na corda que me equilibrava e decidi.
Enquanto estávamos no Café Tortoni, depois de conversarmos um pouco sobre subjetividades, eu levantei de súbito e disse seca e firmemente:
- Vou voltar para casa. Obrigada por tudo, mas é só isso.
Ele congelou o olhar e sorriu imaginando que eu estava brincando. Eu não estava.
Já me sentia farta de depositar nas outras pessoas um pouco de esperança sobre meus dilemas pessoais. Então naquele dia, eu simplesmente não sabia o que queria para mim. Eu não sabia o que fazer, a vida era vazia, estúpida, e sair correndo como uma criança não resolveria meus problemas, pois sabia que teria que voltar para casa, voltar para mim, e apesar da bagagem, nada mudaria na minha rotina. Queria outra vida, outros dias, e não acumular mais novas lembranças para me divertir durante o silencio das minhas noites solitárias regadas a café e cigarros, enquanto desesperadamente tentava suprir toda a suposta ausência que sentia.
Eu sofria de nada e de ninguém. Uma doença cega, sem o menor cabimento, pois eu deveria estar feliz, tinha tudo o que queria. O problema é que eu não sabia mais o que querer, então ficava ali, parada, olhando para a cara do Daniel enquanto falava de sonhos. Sonhos? Ora sonhos! Quem se importa com sonhos quando não se pode mais viver tão em vão?
Eu queria motivos para continuar, motivos reais, sólidos, e aquilo ali para mim, não passava de uma bela fuga a dois. Isso me desanimava. Eu sabia que me arrastava cada dia mais para o inevitável fim.
Eu ainda era muito jovem, para pensar nessas coisas de morte, mas o que eu queria não tinha nome, a única coisa que sabia naquele instante é que estava sozinha, e o Daniel era só enfeite daquele belo cenário argentino. Ele não poderia me dar ou se quer apontar um caminho, ninguém podia. Ele era só mais um cara como esses muitos por aí, reclamando da vida sem graça que escolheram para si, assim como eu, bem sei. Preciso de energia e vigor, e aquele tipo de aventura escapista me enojava.
Um longo silêncio fez-se entre nós, até que ele pediu que eu sentasse e prosseguiu seu discurso. Pagamos a conta e caminhamos pela cidade, mudos, ele ainda tinha muito mais a dizer.
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