Parte Segunda


Entreolhava o reflexo dos meus cabelos naqueles cacos de espelho recortados e colados na parede. Formava um ângulo reto, perpendicular a porta daquele estreito café porto alegrense. Se estendesse o braço alcançaria o balcão de pedidos, enquanto o outro braço tocaria a mesa ao lado. Eram três ou quatro mesas, além de um balcão cujos bancos altos deixavam meus pés balançando no ar.

Bebia o café preto e sorria contida, tímida talvez. Ao meu lado meu amigo engasgado da vida, ressacado de alguma festa hetero banal, que se repetiam diariamente, dispensando qualquer descrição. O Lúcio demoraria a amadurecer, pensei sombria. Do meu outro lado um amigo-brinde-do-balão-surpresa. Não via o Daniel há muito tempo, tanto que mal lembrava o que ele representava para mim. Ou talvez nem o quisesse recordar.

Arrasto comigo o passado que vivi na minha cidade de origem. Não sei se vivi realmente ou se apenas imaginei. Mal podia conviver com meus próprios fantasmas, quem dera transferi-los para outras pessoas; principalmente a ele, que vejo durante poucas horas de raros encontros sociais mesquinhas e ridículos. Aquelas viagens para casa me exaltam a personalidade. Tê-lo ali, naquele momento em que não esperava nada além de um café antes de partir ao garimpo dos antiquários, era como deslocar o cenário e os personagens da minha história íntima.

Trocamos dois beijos, um abraço e sentei-me. Ele me perguntou como eu estava, não que realmente quisesse saber, mas simplesmente para preencher o silêncio entre o “olá” e o “ quer se sentar?”

Éramos divinos o suficiente para não falarmos nada.

Falamos é claro. Do tempo, da chuva e do sol, dos antiquários e do café. Voltava a observar a mesa ao lado. Pessoas gargalhando, estavam perto da saída e podiam ver quem passava na rua. Eu podia ver o mundo lá fora através dos cacos de espelhos na parede.

Era assim que eu sentia aquele momento, ponderei. Um montante de peças quebradas, sem encaixe algum. Sem sentido de continuidade, distraíamo-nos com o movimento da rua. Nenhuma imagem completa. Nenhuma lembrança sólida. Nada além de reflexos e clarões. Eram raios cortando a atmosfera criada entre a colher dentro da minha xícara e meu pé batendo na perna do banco alto. Compulsão, talvez.

Terminei o café e como se fosse professora de metodologia para encontros inusitados, eu quis dizer: por hoje é isso. Levantei e saí. Dois beijos e um “me liguem, talvez eu vá.”

Paguei meu café, tomei minha bolsa em meu ombro e segui para as bancas da feira. Mais tarde tornei a encontrá-los, por vez sob uma nova impressão.

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