Durante o vôo dormi. Muitas coisas haviam acontecido naquele ultimo dia, como se o eixo estável, apesar descontente, do meu íntimo tivessem sido removidos a cento e oitenta graus por alguma mão forte e áspera chamada debilmente de destino.
Quisera eu poder comandar a vida como arquiteta sob uma mesa plana, tendo a visão geral da planta de uma casa antes de ser construída. Naquele momento, percebia o papel quase em branco, com alguns poucos traços angulados. Pouco a pouco iam tomando forma e tornando aquele esboço um belo cenário para que nossas almas habitassem o todo-sempre.
A aparição de Marta foi uma confirmação à minha alma, que não hesitava em questionar-me sobre a relação que tinha com Niel a partir daquele dia. Dois dias haviam passado desde o nosso encontro súbito no Café do Brique, em Porto Alegre, e desde então não tínhamos dormido em lugar algum, minha cabeça latejava, de tantas perguntas.
O pacote que ele recebeu das mãos da minha amiga Marta, me causavam certa curiosidade feminina, porém de alguma forma sentia e sabia o que havia ali dentro. Era o chamado dele e eu estava ali, apenas assistindo.
O que não entendia, era o motivo do disfarce do meu ser naquela trama. O fato da Marta não querer falar sobre nosso contato ao Niel, e a ligação do amigo Thelemita de PoA, me deixaram um pouco nervosa, pois coadjuvava até então.
Carregava em mim um complexo de rejeição muito evidente, disfarçado por uma fortaleza de seriedade impenetrável. Justamente, a lucidez desse fenômeno na minha existência, me fazia reagir como uma fera selvagem, uma paranóia, tornando-me excessivamente controladora e obstinada. Contudo, é claro que a visita da Marta me deixou desconfortável e insegura. Antes disso, éramos dois amigos num belo passeio ingênuo e prematuro, éramos os dois como quando mais jovens, na época em que nos conhecemos. Estávamos apenas vivendo, eqüidistantes, porém amenos, com as janelas abertas aos raios solares da magia universal. Agora não mais, pois as sombras invadiam o elo que nos prendia, mesmo antes, a excessiva luminosidade não nos permitia entender, talvez nem quiséssemos, mas as sombras culturalmente nos causavam desconfiança.
Niel não pensava em nada disso, creio eu, ele estava circulando em outro elo, dentro dele mesmo e daquele pacote. Naquelas horas não percebia que cada elo, formava uma corrente pesada que o amarrava a si mesmo. Era o que eu pensava pelo menos, e o que eu pensava sobre isso, era somente o que eu pensava sobre isso.
Durante o sono, sonhei. Acordei com a voz da aeromoça anunciando o pouso. O vôo demorou muito pouco, estávamos em Cordova por fim.
Não tínhamos para onde ir, e eu acordei confusa. Seguimos até o centro da cidade em busca de um hotel, já na metade da madrugada, naturalmente a cidade emudecia. Dentro de mim ecoava um sussurro, minha missão era muito mais importante do que podia aparentar até ali.
Ao entrar no quarto, largamos nossas malas numa ante-sala, quase um corredor, em direção a cama, pois o quarto era realmente muito pequeno. Havia uma janela grande com cortinas que arrastavam no chão, era clara, bege eu acho, mas só percebi isso ao acordar de manhã com o braço do Niel sobre minha barriga, e o sol forte invadia as paredes claras cobertas com papel de parede estampado. Tudo recomeçava outra vez, seria um bom dia, pensei.
[Veja também: Descompassado]




