Parte Sexta


Ele me convenceu sem tentar convencer. Decidi que ficaria em Buenos Aires e partiria com ele a Cordova, independente dos motivos, afinal, estava ali por um impulso ou necessidade, e esta razão eu não queria entender – não naquele momento.

Caminhamos pela cidade e já estava escuro, precisávamos esperar por três horas até o vôo para o destino escolhido. O Niel ligou para o aeroporto e confirmou os horários, enquanto ele falava com a atendente, recebi um telefonema no meu celular, era um conhecido de Porto Alegre, que há muito tempo não falava. Conversamos rápido e comentei que estava fora do país.

Não tínhamos para onde ir, por isso continuamos conversando, Niel e eu, agora mais descontraídos.  Fomos andando sem perceber o tempo passar, até chegar a uma praça, havia algumas pessoas por lá, nada de anormal, porém o Niel percebeu uma movimentação estranha; ou uma falta de movimentação?

Uma mulher, sentada sozinha num dos bancos, o olhar dela o intrigou, segundo o próprio. Ela não representava nenhum tipo de ameaça aos olhos dos demais, afinal, era apenas uma mulher sentada num banco de uma praça ao anoitecer da bela Buenos Aires. O bravo Niel resolveu ir falar com ela sem que eu me aproximasse, ainda brinquei com ele esperando que ele tentasse seduzi-la. Rimos.

Ela entregou um pacote a ele, apesar de não se conhecerem, faziam parte da mesma Ordem Thelemita. Tudo isso pode soar incrivelmente estranho, bizarro e fictício, não para nós.

Chamava-se Marta, e era muito simpática e interessante, me aproximei e troquei algumas palavras, resolvendo convidá-la para comer alguma coisa com a gente antes do vôo. Ela aceitou de bom grado e seguimos os três, porém o que o Niel não sabia é que ela e eu já nos conhecíamos de outras viagens.

Fomos a um bar próximo, Marta e eu um tanto envolvidas conversamos por um bom tempo, enquanto meu amigo distraía-se com seu novo brinquedo. A curiosidade naquele pacote também me atiçava, confesso, porém mantinha a apreciar aquele delicado momento com nossa visita surpresa. Em momento algum comentamos sobre nossa amizade em Porto Alegre, não sei por que, mas ela não pronunciou nada a respeito de nossas antigas experiências, eu como jovem aprendiz, provava que aprendia também a calar.

Ao mesmo tempo, sentia que poderia estar enganando meu companheiro de jornada, ou não, afinal, desde os primeiros instantes que resolvemos seguir juntos, um acordo foi feito. Aliás, nenhum acordo foi feito, mas evidenciava-se que eu estava em branco desde o encontro no aeroporto de Porto Alegre. A vida recomeçava exatamente ali.

Agora estávamos dentro do carro de Marta, que nos ofereceu carona para o aeroporto de Buenos Aires, nosso segundo cenário ficava para trás, e apenas a certeza de que a dúvida caminharia ao nosso lado.

Ao nos despedir, Marta me abraçou apertado e sussurrou ao meu ouvido que ele retornaria a ligação, não precisava me preocupar com nada, estava segura. Minha fisionomia de questionamento evidenciou-se, mas o Niel não percebeu. Foi andando com as malas até o Check in que associei ao amigo que me ligara horas antes de encontrarmos com a Marta. Muitas coisas começaram a fazer sentido, inclusive à companhia do meu amigo, há muitos anos afastados…

 

[ Veja também Descompassado]

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