Depois de reencontrar os meninos em plena avenida, resolvi acompanhá-los até o apartamento do Lúcio. Sei lá, me convidaram e eu fui. No caminho conversamos muito, Lúcio e eu, o Daniel parecia distante e observava envolta, talvez estivesse apenas curioso, pensei.
Era engraçado não termos nenhum assunto, houve um tempo que éramos muito mais próximos – ou talvez isso também tenha feito parte da minha imaginação resguardada de um passado juvenil e meramente feliz.
Chegamos ao apartamento e o Lúcio foi tomar banho, ficamos os dois na sala. O Niel mal me olhou, talvez não me reconhecesse mais como aquela Beatriz, e sinceramente, o tempo e a distancia haviam me mudado um pouco, assim como ele, que naquele instante representava um homem estranho sentado ao meu lado. Ele saiu da sala e foi usar o computador, já eu fiquei confabulando comigo mesma. “Ele se tornou um esnobe, mais do que já era antes”. Ri sozinha pelos meus pensamentos pueris, julgando o silencio e a indiferença do meu amigo. Ainda éramos amigos! Claro que sim! Afirmei em voz baixa, enquanto estava sozinha na sala.
Ele voltou com um sorriso de criança nos lábios e disse que iria viajar, falou que iria para Córdova. Pensei que ele havia pirado, ou estivesse brincando ou drogado. Naqueles momentos eu havia saído de mim para tentar desvendá-lo. – Era incrível, a velha Beatriz estava parando por um instante de pensar em si e olhava admirada para outra pessoa. Fiquei séria e o encarei demoradamente desconfiada. Ele me disse apenas: “vamos?”
- Impulso talvez, ou realmente era um convite?
É claro, dos meus processos eu bem sei. Já era uma mulher programada para qualquer acontecimento, afinal, não era difícil. Naquela vida pacata, toda a novidade já era de alguma forma prevista. Aquele dia estava realmente estranho. Será que era algum sinal dos deuses? Do destino? Dos astros ou sei lá, fiquei pensando em milhões de possibilidades femininas.
Não disse nada a ele, me virei tensa para janela e acendi um cigarro. Ele voltou para o computador, procurou por informações, horários, vôos e tudo mais.
Eu sabia que ele não fazia a mínima idéia do que estava fazendo. E ele também não sabia que estava me salvando de um precipício denso, cavado ano após ano, por mim mesma. Era como um buraco escuro, eu estava dentro dele, olhando para cima, onde fica aquela brecha de sol tímida. Eu mal podia ver, porém me mantinha religiosamente acreditando que existia alguma coisa depois da brecha de luz e que um dia…Ah, acho que o “um dia” havia chegado e eu não podia mais esperar, mesmo que duvidasse.
Não era a situação mais adequada, pois já não tínhamos mais a mesma sintonia para fazer as malas assim. Assim? Me questionei inúmeras vezes induzindo minha própria resposta. Não bastavam minhas perguntas, a resposta era sempre “sim”. Tentei encontrar qualquer motivo, mas nenhum era bom o suficiente, nenhum abafava aquela vontade de simplesmente ir com ele, sem motivo algum.
Eu também não sabia o que estava fazendo, mas por um minuto o encontrei naquele olhar infantil e me lembrei que não precisávamos saber de tudo.
Apaguei o cigarro e sorri calada. Pulei da janela para o sofá, ainda como criança, e sentei bem do lado dele, segurei no seu braço e disse com certa intimidade: “eu vou”. Ele me olhou paternal e apenas falou determinante: “amanha”.
Peguei minhas coisas e corri para casa, precisava saber o que levaria para uma viagem que nem sabia para onde, afinal, eu nunca havia ido para a Argentina. Muito menos sob aquelas circunstancias, estava empolgada e receiosa. Será que levo vestidos ou casacos? Me controlei e fiz apenas uma mala e uma mochila.
No dia seguinte, no começo da tarde o encontrei no aeroporto. Tive medo de ele estar arrependido do convite, o Niel sempre foi tão indeciso, lembrei um pouco gélida. Quando cheguei, ele ainda sorria da mesma forma gentil, me abraçou e beijou-me os cabelos. Era dele essa delicadeza. Sentia-me segura e viva.
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