Category Archives: Eles Dizem

Date: 2010.02.28 | Category: Eles Dizem, Eu mesma | Response: 3

Semana que vem começo um circuito de criação e desenvolvimento de acessórios para o cliente da empresa que trabalho. Em parceria com minha colega, temos poucos dias para acertar e somente acertar.

Antes disso, aqui no meu sofá, muito bem usufruido no fim de semana, lembrei do que há dias atrás sublinhei:

” O homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e, imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, afim de que, caso o seu mérito ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragância: procederá assim agindo, como prudente arqueiro, que, sabedor da distancia que a qualidade de seu arco permitindo-lhe atingir, e, reconhecendo como demasiado longínquo o alvo escolhido, fixa a pontaria num alvo muito mais alto que o estipulado, esperando, não que sua flecha alcance tamanha altura, mas poder, ajudado pela mira mais alta, atingir o ponto visado.” Maquiavel – O príncipe.

Um lamento que esse tipo de ação seja julgado como preguiça mental ou falta de talento. Nessas ocasiões dignidadade e orgulho são secundarios, e aí validamos aquele trecho do Caio F, que diz quê “malandro é o cavalo marinho que se faz de peixe para não puxar carroça”.

Nada próximo do ideal de equipe que desenvolve o pensamento criativo e comercial, nem sempre as ideologias se afinam, mesmo quando o ideal final é o mesmo; mas a vida real é essa, uma só - e todo dia é dia de caça.

Date: 2010.02.26 | Category: Bobagens, Coisa Nova, Design, Eles Dizem, Eu espírito, Eu lírico, Eu mesma, Música | Response: 1

Bienal

Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio

 Faço um quadro com moléculas de hidrogênio

 Fios de pentelho de um velho armênio

Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta

Meu conceito parece, à primeira vista, um barrococó figurativo neo-expressionista com pitadas de arte nouveau pós-surrealista calcado da revalorização da natureza morta.

Minha mãe certa vez disse-me um dia, vendo minha obra exposta na galeria,

“Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia E muito mais feio que um hipopótamo insone”

 Pra entender um trabalho tão moderno é preciso ler o segundo caderno, calcular o produto bruto interno, multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone, rodopiando na fúria do ciclone, reinvento o céu e o inferno.

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Date: 2010.02.06 | Category: Bobagens, Eles Dizem, Eu espírito, Eu mesma | Response: 4

“Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente eles são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma – e continua procurando para sempre.” Friedrich Nietzsche

Será? E os preguiçosos? Ah, deixa para lá, deixa o Niezstche falar vai…

Foto produzida pela Fernanda Bona, fotógrafa e estudante de artes em Santa Maria – RS. Valeu a loucura súbita que não me deixou cair na rotina em plena madrugada de terça feira, considerando que as 8 e 30 estava no escritorio pronta (?) para trabalhar. Fiquei muito feliz com o convite e espero ver ou ficar sabendo das fotos em alguma exposição que role por lá. Demais fotos podem conferir no flickr ou no orkut dela. Ah… e a maquiagem instantanea; saiu com água.

Date: 2010.01.26 | Category: Eles Dizem | Response: 4

DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ

Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitú rico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar.

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DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
Também conheço esse jogo। Agora pões a trunfa marroquina de espelhinhos, miçangas, bordados e cordões. Como uma coroa, sobre a cabeça. Acendes incenso, velas, jogas sal marinho nos quatro cantos, a água sobre toalha branca. Te benzes. E reviras os olhinhos, dispondo Fatídicos Arcanos. Traças sinais cabalísticos no ar e dizes coisas, Sacerdotisa de Nada, lançando profecias como quem lança milho às galinhas. A cabeça sempre um pouco baixa, para disfarçar a arrogância de ter sido A Grande Escolhida. Porca, porca, porca. Cumpres com humildade tua Amarga Sina De Ser Assim Abnegadamente Superior. E te melas toda no visgo das estrelas, te encharcas de visões equivocadas. Depois procuras o ponto de fogo entre as coxas, e só então suspiras, aliviada de tanta santidade. Ainda continuas? Pára, te ordeno. Não tens esse direito. Há mais. Onde? Tenho todos os direitos, só não suporto nenhum. Como discipliná-los, agora? Pensei que se conseguisse estaria livre. Pensei que se denunciasse a perdição deles me livraria da minha. Agora também me perdi. Destinos, anúncios luminosos. Faz um esforço, vamos. Apunhala, grita, arremata. Xangô te guia, machado em riste.

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Date: 2010.01.22 | Category: Eles Dizem | Response: 1


Porque não suportava mais todas aquelas coisas por dentro e ainda por cima o quase-amor e a confusão e o medo puro, ele voltou à cidade do centro. Marcou a passagem de volta para a sua cidade ao sul em uma semana. Continuava verão, quase não havia lugares e todo mundo se movia sem parar dos mares para as montanhas, do norte para o sul e o contrário o tempo todo. Fatídica, pois, a volta. Em sete dias. Só no terceiro, o das árvores que dão frutos, telefonou. O outro, outra vez. A voz do outro, a respiração do outro, a saudade do outro, o silêncio do outro. Por mais três dias então, cada um em uma ponta da cidade, arquitetaram fugas inverossímeis. O trânsito, a chuva, o calor, o sono, o cansaço. O medo, não. O medo não diziam. Deixavam-se recados truncados pelas máquinas, ao reconhecer a voz um do outro atendiam súbitos em pleno bip ou deixavam o telefone tocar e tocar sem atender, as vozes se perdendo nos primeiros graus de Aquário.
Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra enfim dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um, afligia tanto.

De Ovelhas Negras – Caio F. Abreu