Antes da descoberta do rock, as meninas reinavam sozinhas nos meus pensamentos.
As irmãs Célia Regina e Célia Maria, por exemplo. Minhas vizinhas da rua do Matoso, Célia Regina era um pudim de caramelo e Célia Maria, uma gelatina de framboesa. Apetitosas e vitaminadas, elas moravam no sobrado de uma serralheria. Suas presenças na janela provocavam torcicolo nos passageiros do bonde e nos transeuntes, hipnotizados pela visão daqueles doces maravilhosos. Eu tinha de 16 para 17 anos. Elas deviam ter 17 e 18, respectivamente.
Eram recatadas e intocáveis devido ao policiamento rígido e implacável dos pais. Ao saírem à rua, sempre acompanhadas por eles, andavam invariavelmente em linha reta, como militares treinados. O máximo que algum de nós conseguia era um sorriso educado como cumprimento. Mas, assim que passavam por nós, vupt!, nossos olhares se grudavam em seus corpos, ofuscados pelo volume dos pudicos vestidinhos da época, dando asas à nossa imaginação.
Numa bela noite, quando jogávamos porrinha tranquilamente, conversando alto, soltando gargalhadas exageradas e falando os palavrões costumeiros, eis que vimos, com espanto, na penumbra da esquina do Beco do Mota, uma cena impactante: a família das Célias passava por nós bem vestida como se viesse de uma festa, andando descontraidamente em zigue- zague, o que jamais tínhamos visto. E ainda havia um atordoante detalhe: o pai vinha na frente de braços dados com a mulher e com Célia Regina, enquanto Célia Maria caminhava atrás, ostensivamente feliz, como Doris Day no filme Um Pijama para Dois, de mãos dadas com um… CARECA!
Era demais! Como suportar tamanha afronta? Estávamos preparados para tudo, menos para aquilo. Um careca… E, ainda por cima, aparentando uns 30 anos.
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