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23

 

Fiquei velha igual a Mallu Magalhães (?) Completei 23 nesse sábado, o sol entrou em aquário e eu estou no meu ano 9, no arcano Eremita. Isso quer dizer que estou completando um ciclo, dando adeus ao passado, resolvendo os mal-entendidos e abrindo as portas da frente e fechando as janelas pro quintal.

Esses 23 anos para mim é a constatação que não fui prodígio de nada.

O tempo já passou pra qualquer talento precoce. Agora eu me conformo em ter caído na malha comum de ser uma cidadã brasileira sem nada de genial para oferecer a humanidade.

Não publiquei minhas histórias, não criei nada relevante, mas e daí?

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O ultimo dia daquele ano

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O dia da ventania, era reveillon.

Inveja, quem nunca sentiu?

Fiquei meio impressionada comigo mesma quando me deparei com sentimentos perversos em relação a realização de gente desconhecida.

Me impressionei e logo policiei qualquer outra faísca que pudesse saltar nos meus olhos. Interpretei como inveja. – Ah, mas eu não sinto inveja, só os outros.

Aí comecei a listar motivos para não sentir inveja de ninguém. Claro, enalteci todas minhas vantagens físicas primeiro, afinal, mulher quando quer se auto afirmar logo recorre a esse segmento e em segundo lugar – as vezes disfarçado de primeiro, vem o piegas sucesso profissional-pessoal.

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férias queridas

depois de longos anos de trabalho – executo funções sísificas há 6 anos – pela primeira vez na televisão terei férias.

Após tantas labutas, esse ano estarei em férias até dia 9 de janeiro, por isso, não estranhem a ausência de publicações por aqui. Acho que ficar meio Coreia-do-norte-lifestyle (offline) é o melhor que poderei fazer nesses próximos dias.

[estarei envolvida com armas de destruição em massa para 2012]

Esse ano foi muito louco, se eu fizer uma retrospectiva parece que um milênio inteiro aconteceu nesses trezentos e sessenta e poucos dias.

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Revolução individual

A gente não quer se incomodar, afinal o que todo mundo mais quer é sossego, sucesso e respeito. O preço do não-incomodo é alto.

Pablo Picasso

O preço do não-incomodo é o silêncio, a cabeça baixa e a submissão.

Sabe aquela famosa do “quem cala consente”? Famosa e máxima.

Vivemos em sociedade, em rede, e não falo das redes virtuais na qual temos total domínio com apenas um clique. Um block, um unfollow, ou uma “denúncia de abuso”.

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YOHJI YAMAMOTO: THIS IS MY DREAM

 

“I didn’t want to disturb people’s eyes.  Too many colours.  I am very tired to look at colour.  For my total life, I am comfortable being in black.”

Preguiça de viver

Mais uma vez esse mal me atinge e não é depressão, é só preguiça mesmo. A galera, os papinhos, as euforias e as ideologias fervorosas, – ai que sono.  As festinhas, as roupinhas, os assuntinhos, tudo tão inho que a preguiça invade o meu corpo e uma louca vontade de dormir se espalha – sabe aquele cheirinho de travesseiro?

Parece prepotência diante da vida e de tudo de mais lindo que me rodeia, e talvez até seja, mas e daí? É tanta gente cheia de si com citações em punho para proteger suas escolhas que eu me vejo totalmente sem ânimo pra trocar qualquer figura.

Agora tudo é ao vivo, num mashup de todas as coisas superficiais que até parece profundo divagar sobre política internacional, pós modernidade ou química orgânica.

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auto saudosismo

Nem quero entrar naquela história: olha como eu era e no que será me tornei? Preguiça disso, sabe? Vamos apreciar os looks de 1989.

inverno 1990

repare nas meias, a combinações de cores e corte de cabelo super atual. 1991

Em 1995 já curtindo os conjuntos – comigo minha irmã.

conjunto + color blocking. A lancheira amarela era a minha, aí estou com 7 anos – e a mesma franja…e minha irmã, sempre blasé! <3

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Se eu soubesse – Chico Buarque e Thais Gulin

Um Escape

O válvula de escape perdeu o sentido nos últimos anos porque eu mudei de vida e de mim, transmutei na primeira camada de pele. Natural no processo darwiano, a gente cai de maduro e apodrece no chão. – Deus me livre de morrer um dia! Mas assim como é para todo mundo, os reflexos do passado continuam a iluminar em dias de tempestade.

Não, não há nenhum fantasma. As vezes o acaso do tricô nos faz esbarrar virtual, pessoal ou fofocamente, em pessoas que há tanto tempo não temos notícia e aí a gente fica chocado com a realidade – porquê, heim!?

Como é estranho ver que eles também mudaram e nos seus processos evo ou desevo – lutivos perderam alguma coisa cativa de suas personalidades – entre a segunda e a terceira camada de pele. Gente que perdeu aquela particularidade orgânica, seu jeitinho para adotar alguma técnica de auto-ajuda dos livros de vitrine. Gente que trocou o lifestyle por padronagens, roupas da moda, sapatos da moda, bolsas da moda, tatuagens da moda, sorrisos da moda, amigos da moda e da onça.

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tipografia: um amor

Se eu não fizesse o que eu faço, queria fazer isso… impressões gráficas – ora essa!

E o portfólio do cara, fico sentindo as texturas nos dedos só de olhar a profundidade de cada curva no papel.

O mundo acabou mas e daí?

A gente se perde no meio do caminho. É sério, a perdida é coletiva e o encontro é singular.

Não adianta negar, se alguém já parou para pensar… aí já foi. Alguma coisa já perdeu. Não estou falando em oportunidades perdidas, amigos, amores ou controle remoto. Quero dizer que a gente se perde em nós mesmos. É uma loucura!

Parece que o mundo está cheio de problemas, e a c-r-i-s-e matou a sanidade e sensibilidade das pessoas. A opinião individual é totalmente condicionada ao que os outros vão dizer. Tempos medievais os nossos. Eu nem acredito em crise, para mim é tudo especulação dos psicopatas que lideram o mundo – sim, o mundo. Do mesmo jeito que não dou papo pro aquecimento global. Eu separo o lixo, claro, mas é por que penso na vida dos catadores e tento facilitar as coisas para eles. É meu lado samaritano.

As vezes decidimos que vamos ser isso ou aquilo e no meio do caminho a coisa não faz mais sentido, tudo muda, a gente muda. E quantas vezes a gente insiste na tal da coisa porque aprendemos que é nobre persistir e desistir – ou mudar – é para os fracos?

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acontece –

Flecha

Tatuar-me-ei flecha, sem arco, só flecha solta, bamba, viajante.

Eu, etiqueta

“Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente”

Carlos Dummond de Andrade; o cara da pedra no meio do caminho.