Date: 2009.10.01 | Category: Interlúdio | Response: 3
Encontramos facilmente o templo, afinal é uma das atrações da cidade. Tudo era lindo por lá, o ar, o céu, as construções antigas, as novas, tudo. Estava entusiasmada por termos chegados sãos e salvos daquele súbito passeio.
A vida nos é um eterna desconstrução, desde que encarnamos nesse mundo, estamos aptos a nos desfazer de tudo aquilo que nos é ensinado, apenas questionando.
Às vezes as aparências nos levam a tomar atitudes precipitadas, desfazendo do que sentimos por nossos julgamentos precoces, e de certa forma, nesta situação, a viagem com meu amigo Niel, a lição era exatamente esta.
Eu tinha ligações com algumas pessoas da Ordem em Porto Alegre, mas desconhecia qualquer tipo de missão. Não me caracterizava nenhum pouco influente na vida de absolutamente ninguém. Não inspirava ou sequer referenciava qualquer coisa para alguém naquele lugar, e nem em outro.
Era apenas uma pessoa tentando sobreviver o dia a dia, saindo da casca da infância e assumindo responsabilidades adultas, era assim que me encarava.
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Date: 2009.09.21 | Category: Interlúdio | Response: 2
Durante o vôo dormi. Muitas coisas haviam acontecido naquele ultimo dia, como se o eixo estável, apesar descontente, do meu íntimo tivessem sido removidos a cento e oitenta graus por alguma mão forte e áspera chamada debilmente de destino.
Quisera eu poder comandar a vida como arquiteta sob uma mesa plana, tendo a visão geral da planta de uma casa antes de ser construída. Naquele momento, percebia o papel quase em branco, com alguns poucos traços angulados. Pouco a pouco iam tomando forma e tornando aquele esboço um belo cenário para que nossas almas habitassem o todo-sempre.
A aparição de Marta foi uma confirmação à minha alma, que não hesitava em questionar-me sobre a relação que tinha com Niel a partir daquele dia. Dois dias haviam passado desde o nosso encontro súbito no Café do Brique, em Porto Alegre, e desde então não tínhamos dormido em lugar algum, minha cabeça latejava, de tantas perguntas.
O pacote que ele recebeu das mãos da minha amiga Marta, me causavam certa curiosidade feminina, porém de alguma forma sentia e sabia o que havia ali dentro. Era o chamado dele e eu estava ali, apenas assistindo.
O que não entendia, era o motivo do disfarce do meu ser naquela trama. O fato da Marta não querer falar sobre nosso contato ao Niel, e a ligação do amigo Thelemita de PoA, me deixaram um pouco nervosa, pois coadjuvava até então.
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Date: 2009.09.18 | Category: Interlúdio | Response: 5
Ele me convenceu sem tentar convencer. Decidi que ficaria em Buenos Aires e partiria com ele a Cordova, independente dos motivos, afinal, estava ali por um impulso ou necessidade, e esta razão eu não queria entender – não naquele momento.
Caminhamos pela cidade e já estava escuro, precisávamos esperar por três horas até o vôo para o destino escolhido. O Niel ligou para o aeroporto e confirmou os horários, enquanto ele falava com a atendente, recebi um telefonema no meu celular, era um conhecido de Porto Alegre, que há muito tempo não falava. Conversamos rápido e comentei que estava fora do país.
Não tínhamos para onde ir, por isso continuamos conversando, Niel e eu, agora mais descontraídos. Fomos andando sem perceber o tempo passar, até chegar a uma praça, havia algumas pessoas por lá, nada de anormal, porém o Niel percebeu uma movimentação estranha; ou uma falta de movimentação?
Uma mulher, sentada sozinha num dos bancos, o olhar dela o intrigou, segundo o próprio. Ela não representava nenhum tipo de ameaça aos olhos dos demais, afinal, era apenas uma mulher sentada num banco de uma praça ao anoitecer da bela Buenos Aires. O bravo Niel resolveu ir falar com ela sem que eu me aproximasse, ainda brinquei com ele esperando que ele tentasse seduzi-la. Rimos.
Ela entregou um pacote a ele, apesar de não se conhecerem, faziam parte da mesma Ordem Thelemita. Tudo isso pode soar incrivelmente estranho, bizarro e fictício, não para nós.
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Date: 2009.09.14 | Category: Interlúdio | Response: 5
Nunca soube de onde emergiam todas aquelas idéias e impulsos desnecessários a órbita que havia inventado para minha vida. Então eu era dona de mim, porém comandada pelos meus próprios impulsos?
Não conseguia aceitar isso!
O Niel me parecia muito na dele, como deveria ser, afinal não esperaria absolutamente nada daquele rapaz. Ele só tinha vinte e poucos anos de frustrações adolescentes, mimos e reflexos de uma vidinha burguesa que levava. Ele não poderia me dar o que tanto procurava naqueles últimos anos, eu sabia que não podia.
Então, dei um único corte na corda que me equilibrava e decidi.
Enquanto estávamos no Café Tortoni, depois de conversarmos um pouco sobre subjetividades, eu levantei de súbito e disse seca e firmemente:
- Vou voltar para casa. Obrigada por tudo, mas é só isso.
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Date: 2009.09.11 | Category: Interlúdio | Response: 2
Não tinha muito dinheiro para viajar tão inesperadamente. Estava contente por ter saído daquele cenário que me contaminava todos os dias com tal ânsia desmedida, talvez por isso nem pensasse muito sobre o que estava perdendo ou ganhando com aquela atitude.
Durante as poucas horas de vôo até Buenos Aires não descansei um segundo, mantive minha tensão descrente e automática. Percebi que o Niel dormia, enquanto isso eu o observava silenciosa querendo entender os motivos dele para estar ali, afinal algum havia de ter!
Quando chegamos ao aeroporto, uma atmosfera deliciosa me invadiu, e essa sensação esboçou um sorriso confiante. Naqueles instantes me escapei a uma calmaria, apenas pela impressão de um mundo desconhecido apresentando-se aos meus pés. Era como se as cortinas do grande palco fossem abertas, e a partir dali iríamos descobrir em nós mesmos e talvez um no outro um pouco mais de cada um. A lentidão e a peculiaridade desse espetáculo me deixavam excitada; mal podia esperar para que começasse – sem perceber que o show já estava ecoando aplausos mudos de uma platéia oculta.
Éramos nós, então estranhos um para o outro, mas não me sentia desconfortável ao lado do Niel, pois parecíamos duas crianças, indo brincar numa pracinha, ele me empurrava no balanço para ir mais alto e vice-versa. Falamos sobre o que víamos na rua, e então o passado não existia para nós, apenas aquele dia era sólido e real. Tudo parecia realmente uma grande brincadeira.
Ele já conhecia Buenos Aires, e por isso soube me conduzir, mesmo que claramente empolgado, pelos lugares que passamos. Apontávamos e ríamos muito de tudo e qualquer coisa que nos atravessasse a frente.
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