Sem talento para a sociedade


Será que a sociedade nos cobra talentos técnicos e operacionais ou isso é paranóia da minha cabeça?

Será que para ser bom, independente da área de atuação no mercado, pegar no pesado, seja numa planilha de excel ou sentar na máquina de costura é a prova do quão eficaz é a sua capacidade de produção?

- Eu me sinto esmagada!!!!

As cadeias necessitam de produtividade e para isso, pessoas precisam ser excelentes, seja na apresentação de projetos, fazendo com que todas as linhas paralelas combinem harmonica e geometricamente, ou na linha de produção enquanto a esteira corre e os quase-escravos não levantam a cabeça para olhar para o lado. Não é novidade que eu me sinta de fora disso tudo.
Toda vez que entrei na produção de alguma fábrica de sapato eu sentia vontade de chorar; pelos outros, pois nunca trabalhei numa produção, eu era da elite – o setor de criação.
Os estilistas não almoçam com os modelistas – fato!
Eu sentia compaixão daquela situação que me sufocava, até o dia que eu descobri que os operários amam o trabalho, pois almoçam de graça na empresa e no intervalo falam sobre a novela. Todo dia 20 tem vale e dia 5 o salário e se eles quiserem ganhar mais, fazem hora extra ganhando quase 2 reais por hora.
Agora eu trabalho numa empresa de exportação, não acompanho mais a produção das minhas criações, apenas por fotos, pois tudo é feito na China. Imaginem meu lado existencialista nesse momento?

Às vezes me questiono se é preguiça ou falta de capacidade minha, pois simplesmente NÃO CONSIGO entender, aceitar ou desejar isso para minha vida.

Não costuro bem, não modelo bem, não desenho bem, não escrevo bem, eu simplesmente falo muita bobagem bem direitinho!

Houve um tempo que ser erudito era profissão, os caras se juntavam para ficar pensando sobre a vida e isso já lhes garantiam status de “bacana” na sociedade da época. Essa maldita revolução industrial acabou com tudo! Hoje (e naquela época também?) se pensa em números, moedas, quantidades, pares, dinheiro, dinheiro, dinheiro, é tão sufocante!

Eu trabalho por dinheiro, não fico inventando argumentos para os outros ou para mim mesma. Não é por prazer ou para “adquirir experiência”, pois se eu pudesse escolher, ficaria em casa fazendo nada. Ou não, sei lá.

Quando eu decidi ao longo dos meus dezessete anos sair de casa, eu sabia que minha familia não tinha dinheiro para sustentar meus sonhos, era o que mamãe dizia, então fui obrigada a bancar minhas vontades. Foi a melhor coisa que aconteceu comigo.
Não só bancar financeiramente, mas fazer as coisas valerem a pena até o talo, pois eu sempre andei numa linha entre o tudo que eu podia me dar ou o nada – voltar para casa no interior, lugar cheio de gente chata, burra e limitada; o que definitivamente não me cabe mais.

Faz quatro anos que moro aqui, e ainda carrego comigo esse sentimento de incertezas e vazios, mesmo engolindo a rejeição, eu lamento, estou viva e vou continuar insistindo;
- Nada me caiu do céu, e as vezes eu penso que não sirvo para isso ou aquilo, e que estou no lugar errado, na vida errada, mas eu não desisto antes de terminar um ciclo. Quando não é gratuito, a gente dá valor. Talvez por isso eu não dê ouvidos aos fracassados que culpam as faltas de oportunidade…

“Quis morrer de novo, engoli outra rejeição – mas estou vivo e, sinto muito, vou continuar.” C.F

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