Essa noite eu senti um vazio que suprimiu meu coração. Diferente dos outros vazios, que ardiam no estômago, como uma ânsia desesperada, que espera o destino na soleira da porta, hoje, pela primeira vez eu senti meu coração doer.
Está frio, o tempo levemente úmido e eu peguei meu cobertor verde, felpudo com listras brancas e cheiro de sol; o tenho desde criança. Ele tem cheiro de casa, de mãe e do sol forte que queimava nos varais do quintal da minha casa no interior. Sentei na sacada nova, enrolada no cobertor e senti vontade de chorar.
Antes resisti, dei duas voltas no meio da sala e rodopiei para cá, onde estou ainda, observando a noite, a brisa e ouvindo alguém mexer na lixeira lá embaixo, na rua. O terceiro andar me proporciona uma convivencia conivente com a realidade alheia. É como estar entre o céu e o inferno, é como estar na vida, nas coisas casuais.
Tão de repente o cheiro de sol da minha coberta foi tornando sereno e por acaso minha mãe me mandou mensagem, totalmente inesperada e fora do contexto; disse para sonhar com o principe encantado e que me ama. Não sei se ela falava do principe dela ou do meu. Pelo menos ela ainda sonha.
Estou ouvindo the first day of spring, mas são os primeiros dias do outono que chegam por aqui; lentos, surgem como fumaça de chaminé, daquelas casas espalhadas; telhados distantes vão tramando entre si uma imagem aerea, uma tenue atmosfera aquecida.
Hoje eu me senti sozinha, esquecida e ao mesmo tempo acolhida, pela noite e o silêncio – o vazio. Se as fotos não fossem digitais, eu seria o papel, do avesso – em branco com um carimbo escrito que o destino é o que é hoje e pronto.
Se isso é me anular, então eu me anulo. Descobri que eu gosto de ser assim, sentindo os meus processos e conseguindo descreve-los. Não dói, só o vazio que… passa depressa e ninguém nota.
the first days of spring:






